Maio Roxo: o que os números da DII revelam — e o que ainda precisamos fazer
- Tomas Navarro

- 31 de mai.
- 4 min de leitura

Em maio, o roxo aparece para falar sobre a Doença Inflamatória Intestinal. E eu, como gastroenterologista com décadas de atuação clínica e acadêmica, vejo nesse mês uma oportunidade que vai além da conscientização simbólica.
É uma oportunidade de sermos honestos sobre onde estamos — e sobre o que ainda precisa mudar.
Os números que precisamos encarar
A DII — que inclui a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa — registrou crescimento de 61% em internações hospitalares no Brasil na última década. De 14.782 casos em 2015 para 23.825 em 2024. São 170 mil internações pelo SUS em dez anos.
Esses números não são apenas epidemiológicos. São um sinal claro de que o diagnóstico ainda chega tarde, de que o manejo ainda é irregular e de que a distância entre o que a ciência já sabe e o que chega ao consultório ainda é grande demais.
A DII não é uma doença rara. É uma doença subdiagnosticada, subtratada e, em muitos casos, mal compreendida — tanto pelos sistemas de saúde quanto pelos próprios profissionais que a encontram na prática clínica.
O cenário científico nunca foi tão promissor
Ao mesmo tempo em que os números de internação crescem, a ciência avança em velocidade impressionante.
Novas classes de terapias biológicas — em especial os anticorpos anti-IL-23 — consolidaram-se como padrão de tratamento para casos moderados a graves. As opções subcutâneas ampliaram a autonomia do paciente. A inteligência artificial começa a ser aplicada ao diagnóstico por imagem endoscópica, com resultados promissores.
O perfil dos pacientes mudou. As expectativas mudaram. As ferramentas disponíveis mudaram.
Mas a pergunta que me faço é: a capacitação dos profissionais que atendem esses pacientes acompanhou esse ritmo?
A resposta honesta, na maioria dos cenários, ainda é não.
O gargalo que não está nos medicamentos
Quando analisamos os casos de DII com desfecho ruim — internações repetidas, complicações cirúrgicas, perda de qualidade de vida —, o problema raramente está na ausência de um medicamento eficaz. Está na demora para o diagnóstico correto. Está na conduta baseada em protocolos desatualizados. Está na falta de familiaridade com as manifestações extraintestinais da doença — as artrites, as uveítes, as lesões cutâneas que chegam antes do diagnóstico digestivo.
O gargalo, em muitos casos, é educacional.
E é aqui que quero ser direto: a responsabilidade por fechar essa lacuna não é só do médico individual. É sistêmica. É da academia, que precisa traduzir a ciência em linguagem clínica acessível. É das instituições de saúde, que precisam investir em atualização continuada. E é também da indústria farmacêutica, que tem um papel central e muitas vezes subutilizado nessa equação.
O papel da indústria farmacêutica — além do produto
Trabalho com a indústria farmacêutica há muitos anos. Conheço o seu valor e conheço as suas limitações. E uma coisa é clara para mim: as empresas que tratam a educação médica como estratégia de longo prazo — e não como ação pontual de lançamento — constroem relações muito mais sólidas com a comunidade científica.
O médico que entende profundamente a fisiopatologia da DII, que conhece os critérios de resposta das novas terapias biológicas, que sabe quando escalar o tratamento e quando manter — esse médico não precisa de convencimento. Ele precisa de informação de qualidade. E quando a indústria fornece essa informação com rigor e sem viés, ela constrói algo que nenhuma campanha de marketing consegue comprar: credibilidade científica.
Em gastroenterologia, onde as inovações terapêuticas chegam rápido e com alto custo, essa credibilidade é o ativo mais valioso que uma empresa pode ter junto ao prescritor.
O que a Nagastro faz — e por que isso importa
Fundei a Nagastro em 2016 com uma convicção que o Maio Roxo me reforça todo ano: a distância entre o que a ciência sabe e o que chega ao consultório precisa ser encurtada de forma sistemática, contínua e rigorosa.
Em 10 anos, construímos uma comunidade de mais de 10.000 profissionais. Desenvolvemos cursos presenciais e online em DII, motilidade digestiva, esofagite eosinofílica e outras áreas da gastroenterologia. Estabelecemos parcerias com empresas como AstraZeneca, Janssen, Sanofi e Medley — baseadas sempre no mesmo princípio: conteúdo com qualidade científica real, sem concessões ao rigor acadêmico.
A DII é, hoje, uma das nossas frentes mais ativas — exatamente porque os números mostram que ainda há muito a fazer.
Uma convocação — para médicos e para a indústria
Se você é médico: o Maio Roxo é um bom momento para revisar sua conduta em DII. Os critérios diagnósticos mudaram, as metas terapêuticas mudaram, as opções terapêuticas mudaram. Se você ainda trata DII com os protocolos de cinco anos atrás, seus pacientes estão perdendo.
Se você representa uma empresa farmacêutica com portfólio em gastroenterologia: o Maio Roxo é um bom momento para avaliar se o seu investimento em educação médica está, de fato, chegando onde precisa chegar — com credibilidade, com profundidade e com impacto mensurável.
Em ambos os casos, a Nagastro está disponível para ser parte dessa solução.
A DII tem tratamento. Tem diagnóstico. Tem esperança. O que não pode ter é espera




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